Análise · Eleições de 2022
Quanto custou eleger um deputado federal em 2022
A campanha típica de quem se elegeu declarou R$ 1,9 milhão, 32 vezes a de quem não se elegeu. 406 dos 513 eleitos estão entre os 10% que mais gastaram.
Por Equipe Cofre Público · publicada em
Em 2022, 9.153 candidatos a deputado federal receberam votos. Os 513 que se elegeram declararam à Justiça Eleitoral uma despesa de campanha mediana de R$ 1,91 milhão: metade gastou mais que isso, metade menos. Entre os 8.640 que tiveram votos e não se elegeram, a mediana foi de R$ 59,9 mil, 32 vezes menos. Metade dos eleitos ficou entre R$ 1,24 milhão e R$ 2,61 milhões.
Quase todos os eleitos estão entre as campanhas mais caras
Separando os 9.153 candidatos com votos em dez grupos do mesmo tamanho, do que menos gastou ao que mais gastou, o resultado é desigual. O grupo das campanhas mais caras, de R$ 1,1 milhão a R$ 3,5 milhões, reúne 406 dos 513 eleitos (79%): 44% dos candidatos desse grupo se elegeram. No grupo seguinte, de R$ 438 mil a R$ 1,1 milhão, foram 87. Na metade que gastou até R$ 71,5 mil, um só.
Os dados mostram a associação, não a causa. Os partidos distribuem a maior parte do dinheiro, e tendem a dar mais a quem já tem mandato ou votação conhecida, que já teria mais chance de se eleger. O que fica claro é que uma candidatura competitiva à Câmara, em 2022, era uma campanha de mais de um milhão de reais.
O dinheiro é quase todo público
Das receitas declaradas pelas campanhas dos eleitos, sem contar o dinheiro repassado de um candidato a outro, 83% vieram do fundo eleitoral e do fundo partidário, os dois fundos públicos distribuídos pelos partidos. Doações de pessoas físicas foram 12%, e recursos do próprio candidato, 2%. Entre os não eleitos, a parte dos fundos públicos foi ainda maior: 89%. Somando todos os cargos, os candidatos de 2022 declararam R$ 6,4 bilhões em receitas, 81% de fundos públicos.
Em que o dinheiro foi gasto
Papel ainda é o principal gasto. Material impresso e adesivos somam um terço do que os eleitos declararam; pessoal e militância de rua, quase outro terço. O impulsionamento de conteúdo nas redes sociais ficou em 5%.
| Categoria | Valor | Do total |
|---|---|---|
| Publicidade por materiais impressos | R$ 224,5 milhões | 24% |
| Despesas com pessoal | R$ 139,2 milhões | 15% |
| Atividades de militância e mobilização de rua | R$ 131,3 milhões | 14% |
| Publicidade por adesivos | R$ 87,2 milhões | 9,5% |
| Serviços prestados por terceiros | R$ 77,6 milhões | 8,4% |
| Impulsionamento de conteúdos (redes sociais) | R$ 47,1 milhões | 5,1% |
| Cessão ou locação de veículos | R$ 36,8 milhões | 4,0% |
| Produção de programas de rádio, televisão ou vídeo | R$ 24,2 milhões | 2,6% |
O voto mais caro fica nos estados pequenos
Dividindo o gasto de cada eleito pelos votos que recebeu, a mediana nacional é de R$ 18,12 por voto, mas a variação entre estados é grande: R$ 105,18 no Amapá e R$ 8,19 no Pará. A campanha custa parecido em todo o país (a mediana de gasto dos eleitos fica entre R$ 1,0 milhão e R$ 2,6 milhões em todos os estados), mas o número de votos necessário para se eleger, não. Os estados pequenos têm o mínimo de 8 vagas, e um deputado do Amapá se elegeu com cerca de 15 mil votos, em média; um de São Paulo, com 199 mil.
| Estado | Vagas | Gasto (mediana) | Votos (média) | Por voto (mediana) |
|---|---|---|---|---|
| Amapá | 8 | R$ 1,56 milhão | 15,4 mil | R$ 105,18 |
| Roraima | 8 | R$ 1,00 milhão | 13,5 mil | R$ 71,89 |
| Acre | 8 | R$ 1,33 milhão | 19,4 mil | R$ 63,63 |
| Rondônia | 8 | R$ 1,97 milhão | 40,9 mil | R$ 55,61 |
| Mato Grosso | 8 | R$ 2,36 milhões | 74,8 mil | R$ 33,54 |
| Tocantins | 8 | R$ 1,46 milhão | 48,3 mil | R$ 31,89 |
| Alagoas | 9 | R$ 2,32 milhões | 93,7 mil | R$ 27,38 |
| Espírito Santo | 10 | R$ 1,78 milhão | 67,8 mil | R$ 25,17 |
| Sergipe | 8 | R$ 1,98 milhão | 69,7 mil | R$ 25,04 |
| Goiás | 17 | R$ 2,25 milhões | 103,6 mil | R$ 24,98 |
| Minas Gerais | 53 | R$ 2,22 milhões | 130,6 mil | R$ 21,38 |
| Paraná | 30 | R$ 2,31 milhões | 122,5 mil | R$ 21,37 |
| Paraíba | 12 | R$ 2,27 milhões | 103,9 mil | R$ 20,81 |
| Amazonas | 8 | R$ 2,09 milhões | 133,9 mil | R$ 19,83 |
| Pernambuco | 25 | R$ 2,55 milhões | 117,7 mil | R$ 19,01 |
| Mato Grosso do Sul | 8 | R$ 1,68 milhão | 70,8 mil | R$ 18,37 |
| Maranhão | 18 | R$ 1,97 milhão | 109,8 mil | R$ 18,36 |
| Rio Grande do Norte | 8 | R$ 1,81 milhão | 94,3 mil | R$ 17,92 |
| Rio de Janeiro | 46 | R$ 1,51 milhão | 95,3 mil | R$ 17,81 |
| Distrito Federal | 8 | R$ 1,87 milhão | 107,4 mil | R$ 17,08 |
| Bahia | 39 | R$ 2,03 milhões | 120,9 mil | R$ 16,65 |
| Rio Grande do Sul | 31 | R$ 1,81 milhão | 117,9 mil | R$ 16,06 |
| Piauí | 10 | R$ 1,83 milhão | 109,6 mil | R$ 15,81 |
| Santa Catarina | 16 | R$ 1,71 milhão | 111,6 mil | R$ 14,12 |
| São Paulo | 70 | R$ 2,02 milhões | 199,0 mil | R$ 12,00 |
| Ceará | 22 | R$ 1,42 milhão | 142,0 mil | R$ 11,69 |
| Pará | 17 | R$ 1,18 milhão | 138,1 mil | R$ 8,19 |
O limite de gastos
O Tribunal Superior Eleitoral fixou em R$ 3.176.572,53 o limite de gastos de cada campanha a deputado federal em 2022. Doze eleitos declararam despesas acima desse valor, mas a lei deixa fora do limite os gastos com advogados e contadores (Lei nº 9.504/1997, art. 26, § 4º). Sem os serviços advocatícios, nenhuma das 513 campanhas passa do limite: a maior fica em R$ 3,16 milhões.
O que estes números não dizem
- São valores declarados pelas campanhas na prestação de contas, sem correção pela inflação. Este site não audita as contas.
- Gasto alto não indica irregularidade, e gasto baixo não indica campanha sem estrutura: parte do apoio pode chegar como bens e serviços doados, que entram nas receitas como valores estimados.
- A comparação entre faixas de gasto mostra quem se elegeu em cada uma, não o quanto o dinheiro decidiu a eleição.